sexta-feira, 15 de abril de 2011

HOJE

Hoje a ir ao trabalho vi um rapaz sair de um edifício, provavelmente a ir trabalhar também, e ao sair fez o sinal da cruz no rosto e prosseguiu pela calçada.


Hoje eu vi um senhor a relatar câncer de pulmão e me dizer para que eu continue com a mesma paixão na minha profissão por todos os anos próximos.


Hoje eu vi a Isa e seu cachos perfeitos abrindo novamente seu sorriso ao me ver.


Hoje eu vi o desespero de uma filha ao ver a mãe "chocando".


Hoje eu vi vários adolescentes a ir ao cinema provavelmente para assistir "Pânico 4".


Hoje eu vi a funcionária da lanchonete do hospital , com um vasto sorriso, dizer o pedido da minha refeição antes mesmo de eu proferir o meu desejo.


Hoje eu vi meus livros de medicina chegarem ao mesmo tempo e a Dani com toda sua simpatia a sair da UTI para me entregar o livro mais esperado do ano por mim.


Hoje eu vi uma fratura de órbita de um senhora que colidiu a face diretamente no chão.


Hoje eu voltei a pé novamente para casa pelo mesmo caminho de sempre.


Hoje eu passei em frente a academia, disse oi à Roseli, mas não entrei para me exercitar.


Hoje eu fui conhecer o novo espaço Gourmet do Parque Balneário. Vi vários adolescentes e percebi que a adolescência está cada vez mais distante.


Hoje eu saboriei novamente sushis e sashimis.


Hoje eu me diverti muito com a equipe de enfermagem do Hospital. Rimos e desejamos as mesmas coisas.


Hoje eu me irritei profusamente com um rapaz que dissimulou uma comorbidade para adquirir atestado e não ir trabalhar a partir da 00h00. 


Impressionante como um milésimo de segundo faz o seu dia virar 360 graus e você experimentar vários sentimentos contorcidos e distorcidos ao mesmo tempo.


Hoje eu vi, revi.


E hoje termino meu hoje sabendo que amanhã verei mais do mesmo de maneiras diferentes.


Mas eu não conseguiria ver de outra maneira.

E termino este post a perguntar: ALGUÉM ME VÊ???


:(



2 comentários:

  1. Cruz na porta da tabacaria!
    Quem morreu? O próprio Alves? Dou
    Ao diabo o bem-estar que trazia.
    Desde ontem a cidade mudou.
    Quem era? Ora, era quem eu via.
    Todos os dias o via. Estou
    Agora sem essa monotonia.
    Desde ontem a cidade mudou.
    Ele era o dono da tabacaria.
    Um ponto de referência de quem sou
    Eu passava ali de noite e de dia.
    Desde ontem a cidade mudou.
    Meu coração tem pouca alegria,
    E isto diz que é morte aquilo onde estou.
    Horror fechado da tabacaria!
    Desde ontem a cidade mudou.
    Mas ao menos a ele alguém o via,
    Ele era fixo, eu, o que vou,
    Se morrer, não falto, e ninguém diria.
    Desde ontem a cidade mudou.
    Fernando Pessoa

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  2. Faria mesmo qualquer diferença dizer que sim, você é visto, ouvido e vivido? Mesmo que fosse só por mim, e com certeza não é este o caso?

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